A presença vil do acompanhante!!
Definitivamente medicina seria muito mais fácil se não existisse o ACOMPANHANTE!!
Na grande maioria das vezes essa pessoa (eventualmente mais de um) só serve pra encher o saco, ou seja, não adiciona nada. Fica te alugando meia hora porque quer saber todos os detalhes imagináveis... tanta pergunta que as vezes até o paciente se enche e manda o mala calar a boca.
O acompanhante é tão vil que até mesmo pode destruir a confiança da relação médico/paciente gerando discórdia. Além disso este ser pode ser uma peça fundamental na morte por estupidez que mencionei antes.
Para provar essa última afirmação, vou descrever um caso que acredito exemplificar perfeitamente o que eu digo:
Em um determinado dia da minha carreira estava atendendo na sala de emergência quando chegou uma senhora extremamente dispneica (com falta de ar) e cianótica (roxa). O diagnóstico ficou claro quando eu auscultei o pulmão da paciente... Edema agudo de pulmão (é como afogar no seco - o pulmão fica cheio de liquido impedindo a troca de ar). Com um atendimento bem rápido, conseguimos salvar a vida da velhinha.
Deixei minha paciente monitorizada, pedi alguns exames e fui falar com o marido para explicar o que acontecia... seguiu-se o dialogo abaixo:
- Boa tarde senhor. Eu sou o médico que atendeu sua esposa, ela vai ficar bem.
- Oh obrigado!
- Não precisa agradecer. O quadro dela ainda inspira cuidados, pode ser que ela esteja tendo um infarto. O que sabemos é que a pressão dela estava muito alta e por isso ela acabou desenvolvendo uma condição chamada edema agudo de pulmão, que impossibilita ela respirar direito. Já conseguimos reverter esse problema mas ainda precisamos fazer mais alguns exames. (segue-se mais algumas explicações sobre o quadro da paciente)
O tempo todo o senhor olhava fixadamente pra mim fazendo sinal positivo com a cabeça como quem entendia tudo o que eu falava pra ele...
- Certo doutor, mais uma vez obrigado. Eu gostaria de saber uma coisa.
- Pois não?
- Como está a perna dela? Ela tem tido essas dores na perna faz algumas semanas, já foi no ortopedista mas o remédio só alivia. Será que tem como internar para tratar a dor na perna dela?
- Senhor no momento estamos mais preocupados com o coração e com o pulmão dela. Só para o senhor ter uma ideia ela não reclamou em momento nenhum da perna para mim... apenas da falta de ar.
- É mesmo!!!!??
Me olhava agora intrigadíssimo... parecia não entender como a mulher não havia mencionado a tal dor.
- Mas doutor tem como ver se tem como internar pra cuidar da perna dela?
- Senhor vamos cuidar da perna dela sim pode ficar tranquilo. Agora quero deixar o senhor ciente que o caso dela é bem mais grave que a dor na perna. Vamos tratar o coração, o pulmão e depois vemos o problema da perna.
- Hmm tá certo.
Fui atender outros pacientes e após meia hora retornei a sala aonde estava a senhora para ver os exames que ja tinham ficado prontos. Já na porta da sala de emergência o marido me abordou novamente:
- Doutor! Posso falar com o senhor de novo? Acho que não fui muito claro na nossa última conversa!!
- Pois não senhor... diga.
- Doutor eu gostaria muito que o senhor tratasse a perna da minha esposa. Pode deixar o resto que damos um jeito depois.
- Senhor, o problema da perna da senhora não mata, o do pulmão sim!! O senhor entendeu o que eu expliquei antes?
- Sim, sim, mas veja a dor na perna dela tem dias que não deixa ela andar direito. Eu gostaria muito que o doutor internasse ela pra resolver o problema da perna.
- Companheiro o senhor quer que esqueça o problema da falta de ar dela pra resolver uma dor crônica na perna?! Eu sinceramente acredito que o senhor não ouviu uma palavra do que disse antes.
- Mas doutor, será que o senhor pode interná-la?
- O senhor consegue me ouvir?
- Claro doutor!
- Então qual parte da frase - ela pode morrer por causa do problema no pulmão - o senhor não entendeu?
- Sim doutor, mas a perna dela...
- Senhor!!! (interrompi)
- Eu já entendi o senhor. Vou ver o problema da perna dela assim que ela estiver estável o suficiente pra tal. Com licença!!!
Fui conversar com a paciente que referiu sim dores na articulação coxo-femoral já diagnosticada como artrose, mas que no momento não lhe incomodava. Sai pra dar a "boa notícia" pro marido:
- Cidadão conversei com sua esposa e ela não esta sentindo dor no momento. Ela pode tratar com o ortopedista que ela preferir. Não precisa se preocupar.
- Mas doutor!! Eu gostaria muito que o senhor internasse a minha esposa porque ela tem uma dor muito forte na perna.
- Senhor ela acabou de me dizer que não esta sentindo nada na perna.
- Sabe doutor ela sempre tem dor forte na perna, tem dia que mal pode andar.
Totalmente sem paciencia eu encerrei o assunto:
- Senhor que tal se eu arrancar a perna da sua senhora fora? Assim ela não vai mais ter problema!!
Saí sem esperar uma resposta, porque tenho certeza que seria algo do tipo "tudo bem" ou "será que o doutor pode internar assim mesmo?"!!
A partir de agora acho que vou priorizar casos de dor crônica... Essas são as verdadeiras emergências! Eu consigo até imaginar o casal de volta a residência:
- Como está a dor na perna meu bem?
- Estou só com muita falta de ar! - responde a mulher com uma voz abafada tentando respirar
- Ah aposto que você esqueceu de tomar o remédio pra sua perna!!!
*Sigh*
Na grande maioria das vezes essa pessoa (eventualmente mais de um) só serve pra encher o saco, ou seja, não adiciona nada. Fica te alugando meia hora porque quer saber todos os detalhes imagináveis... tanta pergunta que as vezes até o paciente se enche e manda o mala calar a boca.
O acompanhante é tão vil que até mesmo pode destruir a confiança da relação médico/paciente gerando discórdia. Além disso este ser pode ser uma peça fundamental na morte por estupidez que mencionei antes.
Para provar essa última afirmação, vou descrever um caso que acredito exemplificar perfeitamente o que eu digo:
Em um determinado dia da minha carreira estava atendendo na sala de emergência quando chegou uma senhora extremamente dispneica (com falta de ar) e cianótica (roxa). O diagnóstico ficou claro quando eu auscultei o pulmão da paciente... Edema agudo de pulmão (é como afogar no seco - o pulmão fica cheio de liquido impedindo a troca de ar). Com um atendimento bem rápido, conseguimos salvar a vida da velhinha.
Deixei minha paciente monitorizada, pedi alguns exames e fui falar com o marido para explicar o que acontecia... seguiu-se o dialogo abaixo:
- Boa tarde senhor. Eu sou o médico que atendeu sua esposa, ela vai ficar bem.
- Oh obrigado!
- Não precisa agradecer. O quadro dela ainda inspira cuidados, pode ser que ela esteja tendo um infarto. O que sabemos é que a pressão dela estava muito alta e por isso ela acabou desenvolvendo uma condição chamada edema agudo de pulmão, que impossibilita ela respirar direito. Já conseguimos reverter esse problema mas ainda precisamos fazer mais alguns exames. (segue-se mais algumas explicações sobre o quadro da paciente)
O tempo todo o senhor olhava fixadamente pra mim fazendo sinal positivo com a cabeça como quem entendia tudo o que eu falava pra ele...
- Certo doutor, mais uma vez obrigado. Eu gostaria de saber uma coisa.
- Pois não?
- Como está a perna dela? Ela tem tido essas dores na perna faz algumas semanas, já foi no ortopedista mas o remédio só alivia. Será que tem como internar para tratar a dor na perna dela?
- Senhor no momento estamos mais preocupados com o coração e com o pulmão dela. Só para o senhor ter uma ideia ela não reclamou em momento nenhum da perna para mim... apenas da falta de ar.
- É mesmo!!!!??
Me olhava agora intrigadíssimo... parecia não entender como a mulher não havia mencionado a tal dor.
- Mas doutor tem como ver se tem como internar pra cuidar da perna dela?
- Senhor vamos cuidar da perna dela sim pode ficar tranquilo. Agora quero deixar o senhor ciente que o caso dela é bem mais grave que a dor na perna. Vamos tratar o coração, o pulmão e depois vemos o problema da perna.
- Hmm tá certo.
Fui atender outros pacientes e após meia hora retornei a sala aonde estava a senhora para ver os exames que ja tinham ficado prontos. Já na porta da sala de emergência o marido me abordou novamente:
- Doutor! Posso falar com o senhor de novo? Acho que não fui muito claro na nossa última conversa!!
- Pois não senhor... diga.
- Doutor eu gostaria muito que o senhor tratasse a perna da minha esposa. Pode deixar o resto que damos um jeito depois.
- Senhor, o problema da perna da senhora não mata, o do pulmão sim!! O senhor entendeu o que eu expliquei antes?
- Sim, sim, mas veja a dor na perna dela tem dias que não deixa ela andar direito. Eu gostaria muito que o doutor internasse ela pra resolver o problema da perna.
- Companheiro o senhor quer que esqueça o problema da falta de ar dela pra resolver uma dor crônica na perna?! Eu sinceramente acredito que o senhor não ouviu uma palavra do que disse antes.
- Mas doutor, será que o senhor pode interná-la?
- O senhor consegue me ouvir?
- Claro doutor!
- Então qual parte da frase - ela pode morrer por causa do problema no pulmão - o senhor não entendeu?
- Sim doutor, mas a perna dela...
- Senhor!!! (interrompi)
- Eu já entendi o senhor. Vou ver o problema da perna dela assim que ela estiver estável o suficiente pra tal. Com licença!!!
Fui conversar com a paciente que referiu sim dores na articulação coxo-femoral já diagnosticada como artrose, mas que no momento não lhe incomodava. Sai pra dar a "boa notícia" pro marido:
- Cidadão conversei com sua esposa e ela não esta sentindo dor no momento. Ela pode tratar com o ortopedista que ela preferir. Não precisa se preocupar.
- Mas doutor!! Eu gostaria muito que o senhor internasse a minha esposa porque ela tem uma dor muito forte na perna.
- Senhor ela acabou de me dizer que não esta sentindo nada na perna.
- Sabe doutor ela sempre tem dor forte na perna, tem dia que mal pode andar.
Totalmente sem paciencia eu encerrei o assunto:
- Senhor que tal se eu arrancar a perna da sua senhora fora? Assim ela não vai mais ter problema!!
Saí sem esperar uma resposta, porque tenho certeza que seria algo do tipo "tudo bem" ou "será que o doutor pode internar assim mesmo?"!!
A partir de agora acho que vou priorizar casos de dor crônica... Essas são as verdadeiras emergências! Eu consigo até imaginar o casal de volta a residência:
- Como está a dor na perna meu bem?
- Estou só com muita falta de ar! - responde a mulher com uma voz abafada tentando respirar
- Ah aposto que você esqueceu de tomar o remédio pra sua perna!!!
*Sigh*

4 Comments:
Mas e aí, você curou a porra da dor da perna da velhinha? Hehehe!
caralho
Cidadão! foi foda!!!
Porra diogo, o velho devia estar demenciado já né...
Pelo amor de deus! :P
Esse é o Diogo que todos conhecemos e amamos! HAHAHHAHAHAHAH
Bem feito ! Pena q o velho não encheu mais ainda o seu saco. Prá que dar tanta satisfação ? Vcs médicos é q provocam tudo isto. Ficam paparicando acompanhante. Quem precisa de atenção é o paciente. Ve se aprende mané !
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